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quinta-feira, 20 de março de 2014

Resenha - Coisas frágeis



O livro Coisas Frágeis, de Neil Gaiman reúne nove contos, a maioria com referência a outras obras literárias. Não é preciso ter conhecimento profundo dessas obras (apesar de ser interessante rs) para entender seus contos. No começo do livro, ele explica quando, como e porque escreveu cada uma das histórias. 

Hum... O que falar do livro? Neil Gaiman, todos sabem, é um fantástico contador de histórias. Havia lido, na realidade, apenas um livro do autor, Coraline (que está resenhado aqui) e fiquei apaixonada. A capa de Coisas Frágeis acho uma obra de arte à parte. Porém, fui com tanta sede ao pote com este livro, que acabei me decepcionando. Alguns contos são muito bons, como A vez de Outubro, Golias, e o último, O monarca do Vale. Mas os outros... Achei bem cansativos, me deram bastante sono, alguns são bem estranhos (estranhos mesmo, no sentido mais macabro da palavra). Não que Gaiman seja um contador de histórias fofinhas-tchuqui-tchuqui. Mas ainda assim... Não rolou. A magia e o encanto talvez tenham se perdido. Mesmo com tudo isso, dou três estrelas. Pelos contos que valeram a pena.


terça-feira, 18 de março de 2014

Resenha - Para gostar de ler



O volume 9 - contos, da coleção Para gostar de ler é maravilhoso como os outros da coleção. O livro conta com treze contos, uma pequena entrevista no comecinho do livro com cada um dos autores e uma mini-biografia no final do livro para que o leitor os conheça melhor.
Já havia lido dois contos do livro, Conto de escola, de Machado de Assis e Um apólogo, também do consagrado autor. Acabei relendo, pela genialidade de Machado. Um dos contos não me agradou muito (e até sonhei com ele rs), os demais são muito bons. Confesso que não conhecia os autores João Antônio e Wander Piroli. Mas João Antônio me surpreendeu bastante no último conto do livro, nomeado Meninão do Caixote.
Gosto demais de contos e sou meio suspeita em falar, mas cada autor me inspira! =)


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Nascido no Ano Novo



- Como pode nascer no Ano Novo?
- Ué, nasceu em primeiro de janeiro, assim como a senhora nasceu em abril.
- Mas é estranho. Porque ele nasceu justo no Ano Novo? Como aconteceu?

O diálogo seguia assim, e eles podiam julgá-la como quisessem. Ela, porém, intrigada com a história, não acreditava no que as filhas lhe falavam e teve de perguntar diretamente ao aniversariante.
- Verdade que você nasceu no ano Novo?

Ele dizendo que sim, ela ficou satisfeita e não cobrou maiores explicações, talvez porque soubesse que de tão pequenino, ele não fosse se lembrar do momento extraordinário e exato do nascimento.

Talvez ela estivesse certa. Porque nasceu justo no Ano Novo? Como isso pôde acontecer? Era talvez a data mais bela de todas, pois era o dia da Paz Mundial. Todos os dias deveriam ser “Ano Novo”. Ou então, deveria ser proibido nascer num dia tão importante assim. Então as perguntas martelavam em sua mente idosa: Por quê? Como?


Ninguém possuía a resposta, talvez por preguiça de usar a imaginação, talvez por realmente não a possuir.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Mau pressentimento




Dormia silenciosa. Sonhava. E como costumava dizer ao marido, “pesadelava”. Ultimamente estava tendo diversos pesadelos todas as noites. Não sabia o porquê, pois vivia dias felizes com o marido e os filhos. Sabia mentir a si muito bem. Não se achava sincera consigo mesma e com seus sentimentos. O que sentia pelos outros sabia transmitir da melhor forma e isso sim era sincero. Mas o que sentia por si, não sabia como tirar de sua mente e coração. Talvez por isso os pesadelos constantes.
Acordara suando e com lágrimas nos olhos. No pesadelo, o marido a havia traído com uma garota que no sonho era sua vizinha. Falara até mesmo o nome dela. Joana. Criara ódio pelo nome, mesmo não sabendo de quem se tratava. Mesmo sabendo que era tudo um sonho. Um pesadelo dos piores. Não conseguia voltar a dormir, com medo de a garota Joana voltar para seus profundos mistérios.
Resolveu sair da cama e dar uma volta na casa. Encontra seu filho mais novinho, o bebê, o seu bebê sonhando tranquilo. Teve vontade de abraçá-lo e sentir seu cheirinho de pessoinha nova. Mas não entra em seu quarto com medo de acordá-lo e ter de ficar acordada de propósito a noite toda. E o que seria pior. Acordar o outro filho, que mesmo não muito bebê, ainda chorava de vez em quando. Fica na porta observando o pedacinho de gente e tranquiliza-se. Quer tentar voltar a dormir.
Entra em seu quarto e seu marido ainda dorme cansado. Teve um dia cheio, ela sabia e por isso não acordava para contar-lhe o pesadelo ou tirar satisfações de coisas que ele nem sabia. Deita-se de costas para ele, pois como era seu costume, só conseguia dormir virada do lado direito. E aquele dia ele dormira em seu lugar.
Amanhece e com seus sonhos ainda não tão bons, ela sente que seu marido não está mais na cama. Não se vira, não fala, não abre os olhos e nem sente cheiro, mas sente a ausência. Com alguns anos de casamento e tantos anos de namoro, sabia quando ele estava ao seu lado ou não. Mesmo sem perguntar, mesmo sem apalpar o lado da cama. Simplesmente sabia. E não sabia por que sabia. Era instinto feminino, pensava ela. Abre os olhos e aguça seus cinco ou seis sentidos. Vira-se e vê que seu marido já não estava mesmo na cama ao seu lado. Olha no relógio e já são 8h30min. Atrasada. Não para o trabalho, pois aquele dia era meio período. Atrasada para fazer o café do marido e cuidar dos filhos e casa. Porque o marido não a acordou?
Levanta-se e vai até a cozinha. O café está na mesa e o marido já não se encontra. Já havia ido ao trabalho. Vai até o quarto dos filhos e eles ainda dormem. Como criança dorme. Dorme e não cansa, pensa.
E naquela hora sente a dor que frequentemente sente e não conta a ninguém. Não era uma dor de cólica, dor de ouvido, dor de dente, nem dor de nada externo. Era dor perto do coração, dor abaixo do peito, dor num lugar que ela não sabia onde. Mas doía mais que qualquer dor que sentia no corpo externo. Era uma dor na alma talvez. Era uma dor talvez de espírito. Vai ver meu espírito está me deixando, refletiu. E riu. O espírito não deixa a pessoa. Se o espírito deixa alguém, esse alguém morre. E ficou séria. E se eu morrer? E se isso for um aviso de que meu fim está próximo? E se isso for outro sentimento, um mau pressentimento? Sempre tinha maus pressentimentos. Passava mal o dia todo. Era uma agonia que a possuía e sempre que acontecia isso, ela já esperava o pior. E seu for meu marido? Possuía uma relação tão íntima e tão deles, que se estivesse acontecendo algo com ele, ela sabia que não estava bem. E ele nem precisava estar perto dela para que ela sentisse. Sentiu medo de perdê-lo. Perdê-lo como no sonho. Perdê-lo para uma meninazinha qualquer.
Voltou ao quarto dos filhos depois de dar uma volta na casa para ver se não achava mesmo o marido em qualquer cantinho da casa brincando de esconde-esconde. O menor já havia acordado e pedia leite. Choramingava baixinho, talvez para não acordar o irmão. Foi até o filho e o deitou em seu colo. Conversou um pouco como de costume e deu seu peito para ele beber de seu alimento. Preferiu somente naquele momento esquecer as coisas ruins. Podia passar para o bebê pelo seu leite. A criança podia, por culpa dela, crescer constrangida ou triste ou estranho dos outros.
Logo seu outro filho mais velho já levantara e dizia-se com fome. Foi até a cozinha exercer seu papel de cozinheira-mãe. Logo levava os dois para a creche e ia ao trabalho. Trabalhava num hospital contando histórias para as crianças doentes. Talvez com suas histórias elas ficassem mais animadas e menos doentes. Aquele ambiente era propício para sua doença, pensou de novo. Mas achou que era bobagem, pois como que iríamos transmitir uma dor de coração ou um mau pressentimento ao outro? Não havia como. Mesmo não sendo formada em Medicina, mas em Letras, pensava assim. Doença interior não é transmissiva.
Com emoção, como sempre, contara as histórias para as crianças que já adotara como filhos. Seus olhinhos brilhavam sempre, mesmo sendo as mesmas histórias. Mas a cada novo jeito de contar, para elas era diferente. Sempre era diferente. E talvez fosse por isso que estavam se recuperando tão depressa.
Chegara em casa e seu marido já estava em processo de sonolência. Deitado no sofá, pescava, como costumavam dizer brincando. Chamara para ir deitar-se na cama. Depois de jantar e tomar seu banho, foi-se deitar também. Sentiu outra vez a dor. Mas dessa vez mais forte. Deu um recuo e ele percebeu. Perguntava o que é que está acontecendo meu amor? Mas ela não dizia. Não queria que ele se preocupasse mais uma vez com ela. É besteira minha, amor. Cólicas eu acho. Só senti uma fisgada, mas já estou bem. Virara-se para dormir e ele a abraçava forte. Sentia-se protegida e segura de qualquer Joana. Sentia que aquela noite não teria pesadelos. Sentia que sonharia até mesmo com anjos.
O sono não chegava e pela respiração de seu marido e menor força em seu abraço, sentia que ele já havia dormido. Como sempre, antes que ela. Ela já estava começando a “pescar”, mas percebeu uma luz no outro quarto. O quarto de brinquedo das crianças. Com cuidado e silêncio largou-se do abraço do marido e foi até a luz na ponta dos pés. Quase chegando, sentiu a pontada em seu peito como nunca havia sentido e sentou-se no chão, arrastando-se pelas paredes. Mas a segurança de seus filhos era mais importante e buscou forças nisso. Apalpando as paredes, foi até o quarto. Teve de tampar os olhos, pois a luz era muito forte. Não sabia o que se encontrava ali em sua frente, mas era belo. Via asas ao seu redor e sentia um cheiro familiar, não sabendo ainda o qual.
Sentiu uma vontade louca de chamar o marido para mostrar-lhe o descoberto. Mas ele estava cansado como no dia anterior e como em todos os dias. Queria chamar as crianças para ver a luz bonita, o vaga-lume gigante. Mas elas poderiam se assustar. Ficou sozinha e a luz começou a apagar, mas não por inteiro.
Enfraqueceu-se. Ainda escutara o marido a chamando pelo nome para voltar para cama e dormir. Escutou seus passos no quartinho e queria abraçá-lo e contar sobre seu sonho da noite anterior e contar o mau pressentimento que estava sentindo. Que ele tomasse cuidado e cuidasse das crianças.
Mas não deu tempo.
Quando seu marido abaixou-se para ajudá-la, a luz sumiu e seu espírito foi-se embora.

(Escrito em 16/02/09)
(Desculpe-me pelos erros de português)

domingo, 15 de dezembro de 2013

Céu do PhD



- Estou cansada.
- De que?
- Ah, de trabalhar, de ter que ir pra pós graduação no final de semana, de ter que aguentar uma chefe carrasca, uma auxiliar que não auxilia...
- Calma, calma, está chegando final do ano.
- Final do ano? Estamos em junho ainda!
- Então... Meio caminho andado.
- Não, não... Vai demorar muito pra chegar até o final do ano.
- Nada. Passa rápido, você vai ver.
- É... Tomara, pra eu acabar logo esse curso que comecei.
- Ta vendo? Pelo menos ano que vem, quando acabar o mundo, você vai ser pós-graduada.
- É... Será que o céu vai ser diferente?
- Como?
- Será que o céu vai ser mais chique?
- E será que lá você vai ganhar mais dinheiro por ter esse curso?
- Pode até ser...
- É, pode ser mais chique, mas imagina o céu do PhD.
- Nossa, acho que ele vai até disputar seu lugar com Deus.
- No mínimo. Com Deus e Nossa Senhora. Vai querer ficar à esquerda dele, ou à direita.
- Sim, o lugar que for mais importante, ele vai querer. Até se aos pés de Deus for importante, lá estará ele.
- Imagina agora aquele seu professor da pós, “estrelinha”?
- Estrelinha? Constelação inteira! Aquele lá vai ter um céu inteiro só pra ele.
- Se vai! E ainda vai disputar com todos os anjos do céu, e mais as estrelas, literalmente.
- Vai querer brilhar sozinho lá em cima.
- Ou não.
- Ou não... Melhor Deus mandar logo ele pro inferno, pra não criar muitos problemas.
- É... De problemas, o mundo já está cheio. E o céu vai se encher logo, logo...


(Escrito em 03 de junho de 2011)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Jardim do Éden



Era uma casa grande.
Uma casa salmão, com algumas pilastras.
Pilastras brancas.
Lá moravam Éden, seu irmão Mick, e seus pais Eduardo e Larissa.
Todos os dias, a mãe Larissa regava suas rosas no quintal.
No grande quintal.
Mais parecia uma floresta.
Com rosas, orquídeas, margaridas e borboletas.
As crianças adoravam brincar no jardim.
Faziam dele como se fosse um pântano,
Com um grande castelo como objetivo.
Mick era do estilo bruxo.
Gostava de grandes guerras, não gostava de cavalos, mas sim de dragões.
Éden já era mais o estilo príncipe.
Gostava de cavalos brancos, flores e princesas.
E tudo ocorreu naquela manhã de quinta feira.
Eles brincavam com a vizinha Natália.
Era uma garota ruiva.
Ruiva e sardenta.
Princesa. Bela princesa.
Mick amarrou-a numa das árvores do jardim.
Para brincarem de resgate.
Resgate à princesa.
E quem era o príncipe?
O Éden, claro.
Depois de lutas e mais lutas com o bruxo,
Éden, o príncipe, ganhou a confiança e o coração da princesa.
Literalmente.
Ele para agradar-lhe-á, pegou uma das rosas do jardim.
Colocou a rosa sobre seu vestido.
E saiu feliz.
Não pensando que aquilo fosse um gravíssimo pecado.
A rosa preferida da mãe.
Larissa sai de sua casa furiosa, perguntando quem foi.
“Foi ele, mamãe!”, diz Mick, o bruxo.
“Ah, mas você merecia umas palmadas...”, diz a mãe Larissa, apontando sua rosa quase morta, no colo da menina.
Éden chora pelo grito da mãe.
Se não fosse a rosa do jardim do Éden, esse grande e gravíssimo pecado jamais teria acontecido.
E Deus abriu seus olhos.
E ele nunca mais voltou ao jardim.


(Escrito em 13 de abril de 2008)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Bolsa mágica



- Pode entrar no carro querido. Vou ali falar com uma amiga. Toma a bolsa.
Bolsa. Quando ouve aquela palavra, estremece. Sabe que bolsa de mulher é um mundo encantado, no qual nenhum homem deveria entrar. Aquela noite está fria e ele está só de jaleco. Deve ser estudante de enfermagem ou palestrante daquela faculdade que está diante dele. Está com frio. Frio de doer a espinha.
Abre o mundo encantado da mulher. Saem gloss, sombra, batom, borboletas, passarinhos, purpurina e até um som de caixa de música de bailarina. Para ele que é homem, existem mais de mil bolsinhas por dentro da bolsa-mãe. Passa cerca de três minutos em cada bolsinha procurando a bendita chave que abrirá o carro e lhe dará sua jaqueta de couro quentinha. Tira de tudo de dentro da bolsa: livros, papeis, maquiagem completa, caneta, chave... Chave! Não, é da casa. Sombrinha, mais um livro, absorvente, blusinha de lã. Começa a ficar irritado e dá um sorriso tipo “eu ainda mato”. Sua. O suor pinga dentro da bolsa. Seu rosto fica vermelho. Antes apenas mexia com cuidado. Agora com violência. Olha para os lados. Enxuga a testa com o pulso. Fecha a bolsa e pensa em desistir. Suspira. Sabe que vai voltar a ficar com frio.
Volta sua busca incansável na montanha desdenhosa. No total foram 15 minutos na bolsa. Sua mulher chega.
“Nossa amor, está aqui ainda?! Mas a chave está aqui, olha.”
E numa mágica tira a chave da bolsa.
“Mas que bagunça você fez na minha bolsa!”
Bagunça?! Bagunça??? Isso estava pior que o quarto de nosso filho quando seus cinco amigos vão dormir em casa. Achar a chave é o mesmo que achar um inseto morto no meio do Saara, numa tempestade de areia!
E outra! Essa bolsinha de onde você tirou a chave não estava aí quando eu mexi na sua bolsa!

(Escrito em 27 de setembro de 2009)
(Esta história é real, tirando as borboletas e passarinhos. Ah! E a caixa de música de bailarina. Sério gente, eu vi!)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Entrevista



Numa entrevista de emprego, tinha a seguinte pergunta no questionário: “Quem é você?”.

“Quem sou eu?” – Pensava ela. Poderia ter colocado algo bem importante: “Sou o que sou. Contrate-me que farei milagres”, ou algo bem verdadeiro: “Quem sou eu? Nem os filósofos respondem a essa pergunta. Eu irei responder?”. Mas resolveu ser irônica: “Emanuele, muito prazer”. Irônica, mas sincera. E completou: “Não saberei colocar em três linhas quem sou verdadeiramente. Só me contratando para saber”.

Porém, nem todos gostam da ironia...



(Escrito em 31 de maio de 2011)
(É gente, não consegui aquele emprego rsrs)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Três Marias



Fechava a porta do quarto e via as estrelas. Nem ao menos acendia as luzes, para que ela não assustasse os pontinhos brilhando lá em cima. Que tantos segredos deveriam guardar? Ela contava os seus sentimentos à Ursa Maior, às Três Marias e, arriscava alguns ao Cruzeiro do Sul.

Um de seus segredos era que queria voar até lá e passar uns dias em férias com elas, vendo tudo pequenininho, para entender a grandeza. A grandeza de tudo que lhe contavam: a grandeza do mar, do mundo, do universo, das grandes pessoas. Imaginava que poderia enxergar a grandeza de Gandhi dali de cima. Para ela, que na verdade, nunca o tinha visto nem por foto, imaginava um quase-deus. Seu irmão mais velho o admirava e dizia a ela que “Gandhi era Grande”, e ela pensava em estatura. Ele ria, e dizia que era pequenininho, pequenininho, que era só modo de dizer. Mesmo o irmão dizendo isso, ela queria acreditar que ele era enorme, e daria tchauzinho para ela de onde ele estava, pois de pé, na Terra, alcançaria o céu.

Outro desejo que surgia de sua vontade de subir na ponta das estrelas, era sussurrar o nome do menino que gostava. Não precisaria mais falar alto com as estrelas, tendo o cuidado em prestar atenção e ver se não tinha ninguém por perto. Achava o sussurro uma coisa gostosa e delicada de se fazer. Gostosa porque dava cosquinha na garganta, e delicada porque ouvia sua mãe dizer “eu te amo” ao seu pai, com um sussurro. Era tão bonito, que a arrepiava. Achava que tinha de ser assim mesmo, pois só gritamos quando alguém está longe de nosso coração, assim como gritamos quando alguém está longe fisicamente de nós. As pessoas deveriam sussurrar mais umas às outras.

Seu terceiro desejo, ao encontrar as estrelas, seria ver Deus de pertinho. Seria o que sua mãe chamava de “benção”. Queria poder tocar em seu rosto limpo, em seus cabelos cacheados, em sua pele marrom e olhar seus lindos olhos negros. Queria chamar Deus de Pai, assim como o chamava em suas orações. Sua mãe não sabia, mas ela não chamava Deus, os eu Pai, de Senhor. Achava que possuía intimidade com Ele, assim como tinha com seus amigos, e o chamava de você. Fazia brincadeirinhas com ele, em suas orações, contando piadas que aprendeu na escola, e inventava coisa que queria pedir. Ela sabia que o Pai tinha sabedoria suficiente para saber o que ela queria de verdade, e até para saber as respostas de suas piadinhas, mas ela adorava se divertir com alguém que não conseguia entregar, somente sentir.

Dormiu, com a luz do quarto apagada, as estrelas brilhando, e o coração ardendo em chamas. Feliz porque sabia que seu Deus morava nas estrelas e ouvia todos seus maiores desejos. Sonhou que estava sentada em uma das três Marias.

(Escrito em 27 de janeiro de 2011 às 01h04min)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sentido


O silêncio era tudo o que restava. Nada mais o interessava. Televisão, rádio, jornais, livros e internet: largou tudo. Não estava mais procurando seus Deus nos canais de TV. Utilizava o silêncio como apoio para a profundeza espiritual e humana. Talvez tivesse entendido o sentido de tudo aquilo. Nós não somos ilhas, mas morremos como elefantes. Não conversava com ninguém sobre sua angústia e dor. Nem sua esposa e melhor amiga sabia o que estava pensando. Aquilo o consumia de uma tal maneira, que retirava todas as palavras pronunciáveis. A cada dia seu olhar era mais triste e seu ombro mais caído. Não sorria com frequência, somente quando sua filha - o motivo de muitos de seus nervosismos - vinha com o rosto sonolento lhe dar bom dia. Ele fazia o possível, mas era difícil expressar o sentimento. Seu olhar triste era o que deixava de legado às cores vivas de uma natureza que ele ainda enxergava.
Não deveria ser assim. Se realmente ficasse sem um de seus cinco sentidos, poderia ao menos deixar de uma forma alegre.

(Escrito em 04 de julho de 2012)
(Escrevi este conto chorando, e sempre me emociono ao lê-lo)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Cavalo negro



A tristeza vinha como um príncipe num cavalo negro. Honrava sua dor com espada em punho. O príncipe por um momento longo olhou o fundo de seus olhos e lhe jurava amor eterno. Prometia ficar pra sempre em seu coração. Faria parte de seu dia a dia. Casaram-se. Ela se apaixonou pela tristeza assim como a vítima ama seu carrasco. Com perdão nos olhos e uma dose de ressentimento. Todos os dias se lembrava de seu príncipe e de seu cavalo negro. Talvez fosse masoquismo, ou apenas covardia mesmo. Gostava de seu sentimento. Fazia tudo parecer melancólico. Desde pequena gostava de tudo o que era melancólico. O que todos achavam um simples dia feio e nublado, ela enxergava beleza e reflexão. Quisera sim, essa vida para si, pois era a única maneira de manter contato com seu interior mais profundo. Com a podridão dos desamparados batendo em seu peito. Com a chuva fazendo transparecer sua alma.

(Escrito em 10 de agosto de 2012)